Conto: Uma História de Amor

Já passava das 9h quando o barulho da chuva fina e constante que caía lá fora me despertou de um sono tranquilo e sem sonhos. A chuva que havia chegado torrencialmente na noite anterior tinha nos deixado sem luz durante toda a madrugada. O tédio havia cedido espaço para a paixão que já não éramos mais capazes de esconder. Foi assim que finalmente nos entregamos a um sentimento que nascera muitos meses atrás, quando trocamos as primeiras palavras.
Mesmo com todas as janelas da casa de campo fechadas, meu corpo arrepiava-se com a temperatura baixa daquela manhã. Antes mesmo de abrir os olhos, minhas mãos passearam pela cama desarrumada, buscando por seu corpo ausente. Abri os olhos apenas para constatar que estava sozinha naquele quarto enorme e frio. Sorri ao lembrar de como aquele ambiente havia me parecido aconchegante e romântico poucas horas atrás. Nossas roupas estavam jogadas próximo à cama, no mesmo lugar em que as jogamos em nossa ânsia um pelo outro. Ele ainda estava em casa.
Levantei-me preguiçosamente, procurando por sua camisa em meio às nossas roupas. Senti mais uma vez o perfume que eu tanto adorava enquanto vestia a peça de roupa emprestada. Olhei-me no espelho, desembaraçando os fios de cabelo com os dedos e repassando mentalmente todos os acontecimentos recentes. Recordando o toque de sua mão em minha pele, o roçar de seus lábios nos meus, o calor de seu corpo… Abri os olhos novamente e encontrei-o na soleira da porta, segurando uma bandeja com o que parecia um café da manhã recém preparado enquanto me observava.
Ao me ver abrir os olhos, aproximou-se deixando a bandeja em cima da cama. Afastou meus cabelos que caíam pelas costas e beijou o meu pescoço demoradamente enquanto me abraçava, pegando minhas mãos e virando-me de frente para ele. Abriu aquele sorriso brincalhão que eu já conhecia de outros carnavais enquanto tomava-me em seus braços em um beijo quente e apaixonado que me deixou completamente envolvida. O mundo lá fora deixou de existir enquanto nos amamos uma vez mais. Não havia nenhum outro lugar aonde eu queria estar que não fosse aquele quarto, aqueles braços, aquelas mãos…
Depois de uma manhã maravilhosa em seus braços, desvendando os mistérios e manias daquele corpo que havia habitado meus pensamentos por noites a fio desde o dia em que nos conhecemos, o cansaço e a felicidade deram-se as mãos levando-me novamente ao sono tranquilo e reconfortante dos que amam e são amados. Deitada em seus braços, ouvindo o doce bater de seu coração, adormeci lentamente, quase sem acreditar que fosse possível sentir tamanha felicidade.
Acordei com o vento a balançar as cortinas enquanto a lua lançava seus raios de luar pela janela, iluminando suavemente meu corpo nu por entre os lençóis. Espreguicei-me demoradamente enquanto buscava pelo quarto alguma pista sobre o paradeiro de meu companheiro de viagem. Nossas roupas estavam, agora, dobradas em cima de nossas malas a um canto do cômodo. Levantei-me enrolada no cobertor e me encaminhei para a penteadeira, a fim de pentear os cabelos antes de tomar um banho. Encontrei ali um bilhete escrito com sua letra sempre apressada.
VOLTO EM BREVE.
Guardei o bilhete singelo e sem assinatura em minha bolsa, uma lembrança do fim de semana maravilhoso que estávamos passando juntos. Sorri uma vez mais ao recordar os motivos que haviam nos levado a fazer aquela viagem inesperada para o interior. Quem poderia imaginar que aquela fuga do estresse e da correria da cidade grande acabaria naquele clima de romance que estávamos vivendo desde a noite anterior, quando chegamos ao nosso destino embaixo de um temporal como não se via há meses?
Entrei no banho imaginando há quanto tempo estaria sozinha e se ele demoraria muito tempo para voltar. Abri a torneira do chuveiro e deixei que a água quente escorresse pelo meu corpo, aproveitando a onda de conforto e relaxamento enquanto imaginava as reações de minhas melhores amigas quando eu contasse tudo sobre aquele fim de semana. Ensaboei o corpo lembrando de cada detalhe da manhã que tinha se passado e tentando adivinhar o que aconteceria quando ele voltasse para casa naquela noite. Já estava quase saindo do banho quando o vi entrar pela porta do banheiro, com uma rosa na mão. Olhou-me com o corpo nu e molhado e tomou-me imediatamente em seus braços, molhando sua roupa e envolvendo-me em um beijo quente e repleto de urgências.
Surpreendentemente, depois de todo o temporal da noite anterior, o céu estava claro e sem nuvens. Aproveitamos a tranquilidade do campo para jantar à luz da lua, na varanda charmosa e fresca da casa que havíamos escolhido para nossa viagem de fim de semana. No tempo em que esteve fora ele havia se aventurado pela cidadezinha que havia lá perto e comprado ingredientes para o nosso jantar e uma garrafa do meu vinho favorito. O tempo parecia se esticar ao máximo para que pudéssemos desfrutar de cada segundo daqueles momentos inesquecíveis que estávamos vivendo.
Deitados na grama após o jantar, olhávamos as estrelas, bebíamos o nosso vinho e conversávamos sobre todos os rumos que nossas vidas haviam tomado desde o dia em que nos conhecemos. Lembro-me perfeitamente daquela ocasião. Era como se eu o houvesse conhecido há instantes atrás, mesmo depois de tantos anos.
Estávamos em uma festa na casa de um amigo em comum e, apesar de atento e risonho, seu olhar era distante e melancólico. Meus olhos foram atraídos para ele assim que colocou os pés para dentro daquela casa. Trocamos alguns olhares antes que ele conseguisse se aproximar para perguntar o meu nome e engatar uma conversa descontraída sobre um filme que estava em cartaz na época. Depois disso, nos encontramos diversas vezes em outras reuniões na casa desse amigo, que passou a procurar os mais variados motivos para tentar nos aproximar. Apesar da atração irresistível e impossível de disfarçar, nossas agendas sempre lotadas faziam com que um encontro a dois fosse praticamente impossível. Até aquele fim de semana…
Depois de esvaziar a garrafa de vinho, falar sobre todos os assuntos possíveis e tentar adivinhar o contorno das mais variadas formas no céu estrelado acima de nós, reparei que ele me observava olhar as estrelas. Os instantes de silêncio que se passaram então foram os mais significativos de que me lembro. Seus olhos refletiam o mesmo desejo e felicidade que eu sentia por estar com ele. Tomou minhas mãos nas suas e beijou-as como se fossem as mãos do ser mais amado e desejado de muitas galáxias. Ali, na grama em frente à porta de entrada daquela casa de campo, amou-me com a paixão e o desejo de muitas vidas.
O domingo chegou tranquilamente e com aquela preguiça que só os domingos são capazes de nos dar. O sol entrou pelas janelas do quarto e nos encontrou ainda abraçados, o clima de romance perceptível por nossas roupas jogadas pelo quarto, nossas mãos entrelaçadas e nossa respiração compassada. Por volta das 10h, acordou-me com um cheiro e um beijo que me fizeram abrir um sorriso antes mesmo de abrir os olhos.
Depois da intensidade de nossos desejos e descobertas do dia anterior, decidimos usar nosso último dia no campo para trocar confissões e conversar sobre todos os rumos que nossas vidas haviam tomado desde aquele primeiro contato. Mesmo que nos conhecêssemos há alguns anos, ele sempre foi um verdadeiro mistério para mim. Mistério esse que eu estava começando a desvendar, e estava absolutamente encantada com a oportunidade!
Falou-me sobre o relacionamento com os pais e irmãos, sobre os desafios que precisou enfrentar para chegar até a posição que ocupava atualmente. Falou sobre a infância na casa dos avós, com os primos sempre reunidos correndo e brincando pela fazenda e se reunindo em volta da mesa farta e irresistível que a avó gostava de preparar. Ouviu pacientemente quando, sem perceber, desatei a falar sobre minhas inseguranças e a saudade que sentia de ter um colo de vó para deitar. Me abraçou ainda mais forte quando percebeu que lágrimas se formavam em meus olhos e beijou-me como se acariciasse minha alma, acalmando-me e fazendo com que uma onda de calor e conforto percorresse o meu corpo. Era incrivelmente maravilhoso estar ali, com ele, naquela casa de campo.
A única coisa capaz de nos tirar daquela casa era a fome que começávamos a sentir e que varria qualquer pensamento de nossas cabeças. Tomamos um banho revigorante antes de sairmos para explorar e conhecer a cidadezinha que ele havia visitado na tarde anterior e onde encontramos um restaurante charmoso e absolutamente encantador, com uma comida divinamente preparada pelas mãos de uma senhora muito simpática e solícita que fez questão de nos presentear com um doce feito com frutas da região. Nunca havia imaginado que estar a sós com aquele homem pudesse ser tão perfeito quanto estava sendo!
Depois de passear pela cidadezinha e conhecer alguns de seus simpáticos e sorridentes habitantes, presenteou-me com um único botão de rosa vermelha antes de voltarmos para o nosso refúgio na casa de campo. Como dois adolescentes apaixonados, o riso entre nós era fácil e farto, leve como a brisa mais suave de primavera e doce como frutas recém colhidas. A poucas horas de nosso regresso, chegamos à casa de campo com aquela sensação de nostalgia que só os melhores momentos de nossas vidas é capaz de deixar.
Deixei-o entrar sozinho no banho enquanto tentava absorver e registrar cada centímetro daquela casa que havia sido o cenário de nossa paixão e nossas descobertas. Eu não queria que aqueles momentos se acabassem! Não queria voltar para a correria e o estresse da cidade grande. Não queria ter de me ausentar daquele abraço, daquela pele, daquele cheiro… Eu queria mais! Mais daquela paz serena e completa da casa de campo, mais daquele perfume nos travesseiros ao acordar, mais dos sorrisos bobos e sinceros que eram tão fáceis e naturais perto dele… Queria mais, muito mais, daquela sensação plena e irresistível de felicidade que eu havia encontrado em seus braços.
Tomada por um senso de urgência e por um desejo enorme de não deixá-lo partir, despi-me de todos os receios e pensamentos e juntei-me a ele no chuveiro, disposta a deixar gravada na pele a sensação de seu toque e de seus beijos. O mundo lá fora não era bem vindo em nossa casa de campo! Aproveitamos o nosso fim de tarde com a despreocupação e o romance de dois amantes apaixonados, sedentos por mais um minuto de cumplicidade e companhia.
Eu sempre soube que aquele fim de semana seria um divisor de águas em minha vida. Desde o começo daquela viagem as minhas intenções sempre foram muito claras: descansar, refletir e me encontrar. Depois de tantos anos trabalhando no limite da exaustão, poder parar alguns instantes para ouvir meus próprios pensamentos tinha se transformado em artigo de luxo, e era isso o que eu buscava. O que nós dois buscávamos. Durante aqueles dois dias eu pude encontrar muito mais do que paz interior. Naquela casa de campo eu descobri em meu companheiro as minhas melhores qualidades e uma versão muito mais leve e divertida de mim mesma.
Aqueles dois dias que passamos juntos jamais me abandonarão completamente. Seja pela rosa vermelha que ainda guardo entre as folhas de nosso livro favorito ou pelo perfume que tanto me encanta, pelo toque único e eletrizante ou pelo sorriso bobo e espontâneo, as lembranças daquele fim de semana jamais deixarão de me acompanhar.
Blogueira, poetisa e fotógrafa amadora, a Beca ganha a vida como Gerente de Conteúdo em uma agência de marketing 360, mas a sua paixão mesmo é a poesia, a fotografia e a música.

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